A sabedoria do silêncio
Revista Espaço Acadêmico, nº. 62, julho de 2006
RAYMUNDO DE LIMA
“Dentre todas as manifestações humanas, o silêncio continua sendo a que, de maneira muito pura, melhor exprime a estrutura densa e compacta, sem
ruído nem palavras, de nosso inconsciente próprio” (J.-D. Nasio)
“O analista não tem medo do silêncio [...]; ele não escuta somente o que está nas palavras, escuta também o que as palavras não dizem. Escuta com a “terceira orelha”... (T. Reik)
"Na Finlândia, se você está feliz, deve estar em silêncio para ouvir os próprios pensamentos” (?)
“O analista não tem medo do silêncio [...]; ele não escuta somente o que está nas palavras, escuta também o que as palavras não dizem. Escuta com a “terceira orelha”... (T. Reik)
"Na Finlândia, se você está feliz, deve estar em silêncio para ouvir os próprios pensamentos” (?)
É praticamente impossível esperar que crianças e adolescentes
naturalmente fiquem em silêncio numa missa, aula, teatro, concerto
musical, reunião,
cinema. Os adultos, por sua vez, deviam dar o exemplo ficando de boca
fechada nas igrejas antes ou durante missa, numa palestra, na
biblioteca, etc.
Será que existe medo do silêncio, necessário para reflexão?
Para ler e compreender um texto filosófico ou teológico, um poema, é
preciso silêncio. Há músicas que só podem ser ouvidas sob um fundo de
silêncio.
Os retiros espirituais são importantes para capacitar as pessoas a
conviverem melhor consigo mesmas; aprender a controlar a inquietação de
nossa alma,
rumo à ascese. Não “treinar” o silêncio é se entregar à fala vazia ou
boba, reforçando um estilo sustentado na ignorância.
“O combate contra a ignorância é a meta de toda educação” diz o professor da UFMG, Roberto Jamil Cury.
“Se a barbárie está presente através de atos na
própria civilização, desbarbarizar tornou-se uma questão urgente da educação”, alertava o filósofo T. Adorno, na década de 1950.
Contudo, o elogio ao silêncio como sinal de educação deve ser rompido,
sempre, para protestar contra os atos que causam direta ou indiretamente
indignação, violência e destruição.
Silêncio para ensinar.
Os professores do ensino fundamental e médio, atualmente, reclamam que
na sala de aula passam mais tempo pedindo silêncio aos alunos do que
ensinando.
Apesar dos sinais de barbárie na escola contemporânea, pouco se tem
feito para impedir o seu avanço. Que fazer se os especialistas em
educação se
limitam a rotina de produção teórica abstracionista, e os responsáveis
pelo sistema educacional continuam fugindo do compromisso de fazer
“dialética
do concreto” com o cotidiano das relações humanas na escola e na
universidade? Onde está o equilíbrio entre conhecimento e sabedoria na
formação dos
professores para o futuro? Quem educará os pais para melhor educar os
filhos?
Um dos efeitos da “geração net” é não respeitar os espaços cujo silêncio
é quase obrigatório. Além de não suportar o silêncio necessário para
introspecção, a “geração net” não tem paciência de seguir o fio condutor
de uma conversa. Quanto mais jovem, mais rapidamente passa de um tema
para
outro ou troca de interlocutor como quem aperta o botão do controle
remoto da TV. Mais do que impaciência, tais atitudes podem também
revelar
intolerância e desrespeito para com o próximo e falta de sintonia com o
ambiente.
Como imaginam que “mandam no pedaço”, crianças e adolescentes se acham
no direito de interromper a conversa dos adultos por motivo fútil. Os
adultos,
por sua vez, fingem que aceitam a atitude grosseira, ou se acovardam,
deixando de exercer a autoridade de educadores, cujo resultado
previsível é a
incivilidade.
Muitas pessoas estão deixando de freqüentar os cinemas para evitar
constrangimentos com platéias mal educadas, barulhentas, parecendo estar
mais
interessadas em comer pipoca e dar arrotos de refrigerantes do que
assistir ao filme em silêncio. (Existe diferença entre a demonstração de
incivilidade do MLST no Congresso Nacional, as depredações das escolas
públicas, ou outras menos barulhentas promovidas pelas gangs no
dia-a-dia
urbano?).
Mede-se o nível de ensino de uma universidade pelo grau de silêncio de
sua biblioteca. Alunos de alguns cursos de nível superior são mais
propensos ao
zunzunzun da “conversa paralela” que, sem querer-querendo, termina
atrapalhando o silêncio imprescindível para ouvir uma exposição oral. Se
o assunto
é complexo e/ou o professor tem o estilo monótono, aumenta a
probabilidade de dispersão e cochichos inconvenientes. O historiador
Peter Burke observa
que essa inclinação para romper a romper com o silêncio necessário de
uma aula, nos países latinos, talvez viria de costume cultural de
“tentar ouvir
muitas pessoas falando ao mesmo tempo”. Ao contrário do costume
anglo-saxônico que exige total silêncio da audiência, o palestrante para
público
latino-americano deve estar preparado para discorrer seu assunto tendo
como ruído de fundo o zumbido de vozes. Curiosamente, ele seria
considerado mal
educado ou impolido se pedir silêncio, deixando transparecer certa
irritação para com os verdadeiros mal educados.
Convenção do silêncio.
Burke observa que existe um “acordo público” que nos induz ficarmos em
silêncio em certas ocasiões. Num velório, solenidade, audiência pública,
culto
religioso, concerto musical, durante a execução do Hino Nacional, o
silêncio é sinal de respeito e sintonia espiritual. Devemos evitar
falar, ainda
que baixinho, para não causar constrangimentos em ambientes sociais
necessariamente silenciosos. O silêncio é natural porque faz parte da
função
biológica, quando estamos num banheiro, tentando dormir; ou psicológica,
quando nos entregamos à introspecção; ou social, quando esperamos nossa
vez,
numa fila, cortejo fúnebre.
O “silêncio é um dos elementos essenciais em todas as religiões”, observa G. Mensching. Há variedades de silêncio sagrado: pessoal, comunal, o
‘silêncio eleito’ dos monges e freiras de clausura, a oração silenciosa ou ‘mental’. “O silêncio religioso é um misto de respeito por uma divindade;
uma técnica para abrir o ouvido interior; e um sentido de inadequação de palavras para descrever as realidades espirituais”, escreve P. Burke.
É preciso “saber ficar em silêncio”, sentenciava La Rochefoucault. Os
mal educados ignoram o sentido ético, estético, cultural, moral,
jurídico e
psicológico do silêncio. Assim como o sábio e o monge escolhem ficar
mais tempo em silêncio – meditando, orando – podemos inferir que os
verdadeiramente civilizados e comprometidos com a sabedoria são
propensos a conversas intercaladas com o silêncio da prudência ao dizer e
esperar o
outro revelar seu ponto de vista. O silêncio atua como parte fundamental
de uma conversação, que deve obedecer às regras de diversas situações,
revelando assim o grau de civilidade das pessoas que participam dos
diferentes encontros sociais.
Existe o “silêncio localista” das igrejas, bibliotecas, museus e
hospitais. Recebe um olhar de reprovação e um discreto psiu quem
desrespeitar o
silêncio necessário para rezar, estudar, apreciar, ouvir uma palestra,
ou visitar um enfermo.
Portanto, precisa ser reeducado aquele que desrespeita os locais de
silêncio. A pessoa que fala pelos cotovelos palavras vazias, que sofre
de
incontinência verbal monopolizando a palavra, poderia receber benefícios
incalculáveis psicanálise. É preciso compreender que excesso de
palavras
cansa, irrita, chateia, e termina boicotando a harmonização do ambiente
social e comprometendo a própria imagem do falante compulsivo.
Sabedoria e cálculo do silêncio.
Vários ditados populares dão importância ao silêncio: “Deus nos deu uma boca e dois ouvidos para que possamos menos falar e mais ouvir”;
“Manter a
boca fechada e os olhos bem abertos”, diz uma versão italiana; “Em boca fechada não entra mosca”, dizem os espanhóis e portugueses. Os comerciantes
europeus inventaram a metáfora “o silêncio é de ouro e palavra é de prata”. O provérbio árabe “cada palavra que tu falas é uma espada que te ameaças”
induz a prudência e o cálculo sobre o que, como e em que ocasião falar.
Existe uma relação íntima entre o silêncio e a prudência. O padre jesuíta Baltazar Gracian (séc.17) achava que
“no silêncio cauteloso é que a
prudência se refugia”. Ou seja, escolher ficar em silêncio não é valorizar a mudez, mas sim, saber calar de acordo com o lugar ou a ocasião:
“Fale
pouco, mas nunca pareça mudo e embaraçado...”, dizia uma antiga etiqueta social. Até o filósofo da linguagem, Wittgenstein (séc. 20), alertava que
“Aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Enfim, o silêncio pode ser reconhecido como uma virtude que evita polêmicas desnecessárias e brigas
perigosas. “Diante de tanta ignorância respondo com meu silêncio”, encurtava Rui Barbosa.
Entretanto, diante da intolerância, do racismo e dos fundamentalismos,
devemos ficar em silêncio? Nessas situações, o bom senso entende que
“o dever
do intelectual é romper o silêncio, ainda que sua voz seja abafada pelos poderosos e seus cúmplices de plantão”[1]. “O
grande cúmplice da tirania é o
silêncio; não atacar o despotismo é a maneira mais covarde de servi-lo;
não denunciá-lo é auxiliá-lo; estar próximo dele sem feri-lo é a maneira
mais
vil de protegê-lo; e proteger o crime é mil vezes pior que cometê-lo;
eis aí a hora em que a palavra é um dever e o silêncio é um crime”[2].
Nada justifica, portanto, que muitos intelectuais – principalmente
aqueles que acreditam que a “esquerda deve ser, sempre, moral ou ética”
fiquem
calados diante do terrorismo (condenado, inclusive, por Che Guevara), do
genocídio nos regimes totalitários autodenominados socialistas ou
nacional-socialistas (nazi-fascistas), da corrupção, da delação em nome
da “causa justa”. É triste reconhecer como o infantilismo ainda domina
uma
parte da esquerda que cultua personalidades e faz “turismo
revolucionário”[3],
se alienando de ver o “todo”. Há que sustentar, sempre, uma atitude
crítica das contradições dos regimes ou dos homens “demasiadamente
humanos”. Tomás de Aquino dizia temer o homem que só conhece um livro
[Timeo
hominem unius libri]. Os homens sensatos deveriam desconfiar de todos os
discursos, sobretudo os que produzem entorpecimento da razão crítica
dos
ouvintes condenados a somente ouvir em silêncio, repetindo o que o
“grande mestre” diz.Os alunos deveriam questionar os professores que
falam tanto
como que obrigando os alunos a um silêncio de fé. Provavelmente, nesse
caso, não temos ensino, mas sim, doutrinação.
Hoje, convivemos com uma civilização complexa, dominada pelo fetiche
tecnológico sem um código moral de como usar tais bugigangas. O celular,
por
exemplo, é útil, mas também pode ser um instrumento de incivilidade
quando toca fora de hora e no lugar inadequado. Pior é quando o dono se
acha no
direito de atender, ali mesmo, sem cerimônia e sem vergonha, falando
alto para quem quiser ouvir. E o que dizer daqueles que falam com o
famigerado
aparelho dirigindo seu carro? E os que rompem o silêncio imposto por uma
prisão que serviria para fazerem seu exame de consciência e se sentem
autorizados a usarem o aparelhinho para desencadear violência numa
cidade como São Paulo?
[1] OZAI, Antonio. “Assim falou Vargas Vila”. Disponível em Revista Espaço Acadêmico, nº. 61, junho de 2006. Acesso em: jun. 2006. Acesso em: jun.
2006.
[2] BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília: Companhia das Tetas Publicadora, 2005. (XLVIII).
[3] O psicanalista Contardo Calligaris toma emprestado uma idéia de outro psicanalista, Fábio Hermann, que observou que o
“turista é quem tira seu
retrato colocando-se na frente do lugar visitado, mas olhando para a
câmera: somos turistas quando viajamos de costas para o real [...]. Aos
turistas
revolucionários de Caracas, sugiro uma leitura. Rossana Rossanda acaba
de publicar (na Itália) suas memórias, "La Ragazza del Secolo Scorso" (a moça
do século passado; Einaudi)”. (CALLIGARIS, C. Os revolucionários silenciosos. Folha de S. Paulo, Cad. Ilustrada, 22 de junho de 2006.
por: RAYMUNDO DE LIMA
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